quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Cruz do Anhanguera

Por José Mendonça Teles*

O Popular - Magazine - 16.12.2009



Primeiro, uma historinha: Luís do Couto, pai da renomada artista plástica Goiandira do Couto, que nasceu na cidade de Goiás em 1884 e lá faleceu em 1948, era juiz de Direito em Catalão no ano de 1917, e como a obrigação de juiz é ler processo e julgar, imagino que um dia, com o saco cheio dessas pendengas jurídicas, deu um basta: – Chega, gente, estou cansado, durante uma semana vou fazer o que mais gosto, poesia e caminhar. E olha que o nosso personagem já era autor de dois livros de poemas, Violetas (1904) e Lilazes (1913), portanto, bem respeitado na cidade não só pela sua função judicante, mas pelos dons literários.

Naquele tempo, Catalão era conhecida como a “Atenas de Goiás”, antes da chegada de um engraçadinho que contestou: – Catalão? É apenas Goiás! Mas isso é outra história, vamos ao que interessa: e o poeta Luís do Couto saiu a caminhar. “Vou buscar a rota do Anhanguera”, disse e, convidando alguns amigos para acompanhá-lo, pôs o pé na estrada.

Depois de andar bastante e já consciente de que estava no mesmo caminho do bandeirante, Luís do Couto e companheiros pararam às margens de um ribeirão para pegar o “boião”. Descansado, o poeta começou a perambular por ali, quando viu um pedaço de aroeira, lavrada, já carcomida pelos anos, no meio de uma saroba. Achou estranho, pois naquele deserto goiano aroeira trabalhada era peça rara. Aguçando a curiosidade, andou mais um pouco e viu, entre árvores altas, outro pedaço de aroeira, também lavrada e danificada, desta feita fincada no chão. Estava decifrado o teorema: os dois pedaços de aroeira formavam a cruz do Anhanguera, deduziu o poeta, depois de decifrar, com dificuldade, a inscrição, quase apagada, de “1722”.

Conhecedor da história de Goiás, sabia o poeta que Bartolomeu Bueno saíra de São Paulo, em direção a Goiás, acompanhado de 200 homens, entre eles os sacerdotes George (beneditino) e frei Cosme (franciscano), que cuidaram da parte espiritual da tropa. Retornando da excursão, Luís do Couto comunicou às autoridades o seu achado e a notícia correu o País. Chegou aos ouvidos do governador (naquele tempo era presidente) de São Paulo, que se achou no direito de reivindicar a cruz para o seu Estado: – A cruz é nossa, mande-a imediatamente, telegrafou ao presidente de Goiás, Olegário Pinto.

Os goianos reagiram dizendo não, e Luís do Couto a levou para Ipameri e de lá a transportou para a cidade de Goiás, onde foi erigido, por iniciativa do poder público e de escritores, entre eles Americano do Brasil e Joaquim Bonifácio de Siqueira, o monumento que ficou conhecido como a Cruz do Anhanguera, no mesmo local onde existira a Igreja da Lapa, levada pela enchente de 1839.

Terminada a historinha da cruz do Anhanguera e seu benfeitor, o juiz-poeta Luiz do Couto, homenageio nesta crônica a notável amiga, amigona de paixão apaixonada, a universal pintora das areias Goiandira do Couto, filha de Luiz do Couto, que na altura de seus 90 e tantos anos representa o símbolo maior do patrimônio cultural vilaboense.

* José Mendonça Teles é escritor e historiador goiano.

2 comentários:

jidij sky disse...

UMA BOA HISTÓRIA !!!

Adriana Corrêa Dias disse...

Ótima redação! Não sabia desta parte da história. O local onde foi encontrada a cruz, Fazenda dos Casados, é de minha familia. Gostaria que a cruz tivesse ficado em Catalão... =/
Vi que você é professor de audiovisual, não tem vontade de documentar nada sobre Catalão? Eu morro de vontade de falar sobre a festa do Rosário, as congadas, os poetas que lá moraram, essas histórias de lá... Tenho um livro de um jornalista do RJ contando uma outra história também muito chocante sobre a morte de Antero, que também tem um pouco a ver com minha família. Qualquer coisa, estou no insta: @driiicorrea . Sou da área de publicidade mas tenho alguns projetos voltados para audiovisual e gostaria de ter mais contato com pessoas da área.
Feliz 2017!!!